The National Times - Esquerda venezuelana se divide diante da aproximação com os EUA

Esquerda venezuelana se divide diante da aproximação com os EUA


Esquerda venezuelana se divide diante da aproximação com os EUA
Esquerda venezuelana se divide diante da aproximação com os EUA / foto: © AFP

"Nem colônia, nem tutela, a pátria não se entrega!", gritavam militantes de esquerda venezuelanos em um recente protesto em Caracas. Após 25 anos de discursos anti-imperialistas do chavismo governante, eles fazem parte da parcela da população indignada com a mudança de rumo e a extrema proximidade com os Estados Unidos.

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A esquerda venezuelana se divide às vésperas do início, nesta semana, em Caracas, de um diálogo político entre setores da oposição e o governo que pode resultar em eleições, sob a condução dos Estados Unidos.

Durante anos, como vice-presidente ou em outras funções nos governos chavistas no poder desde 1999, Delcy Rodríguez acusou Washington de atacar a soberania venezuelana por meio de sanções econômicas e do "roubo" e da "espoliação" de ativos venezuelanos nos Estados Unidos.

Mas, após assumir interinamente a Presidência da Venezuela depois da derrubada de Nicolás Maduro em 3 de janeiro, em uma operação relâmpago americana, ela passou a colaborar ativamente com Washington para abrir setores estratégicos, como petróleo, energia elétrica e mineração, ao capital privado, sobretudo americano.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que seu país dirige a Venezuela e chegou a sugerir, em sua rede, Truth Social, que o país poderia se tornar o 51º estado dos EUA. Também brincou dizendo que poderia disputar uma eleição contra Rodríguez, já que é muito popular na Venezuela.

Segundo o New York Times, Delcy Rodríguez e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, trocam regularmente mensagens em espanhol pelo WhatsApp e inclusive selfies. Em Caracas, nenhuma decisão governamental importante é tomada sem antes consultar Washington.

Os venezuelanos mais à esquerda não perdoam a guinada de 180 graus do governo chavista.

"A política promovida pelo governo e pela cúpula" do Partido Socialista Unido da Venezuela "é uma política de direita, é uma política de entrega", declarou à AFP, indignada, Jaqueline López, militante comunista de 45 anos.

Rodríguez "recebe orientações, até pelo Twitter, do governo americano e vai lá e cumpre tudo à risca", afirmou López durante uma manifestação em Caracas.

"Yanques, go home!"; “Não ao saque imperialista!”, gritavam os manifestantes perto da Casa-Museu de Simón Bolívar. Em outra manifestação anterior de chavistas, uma bandeira dos Estados Unidos foi queimada.

- "Ninguém tinha se atrevido" -

O falecido presidente Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, enfrentaram Washington e se aliaram a Cuba, Irã e China. Implementaram forte intervenção estatal na economia e amplos programas sociais.

Muitos ainda se lembram de Chávez, em 2006, diante da Assembleia Geral da ONU, dizendo que "cheira a enxofre" porque antes dele havia discursado o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a quem chamou de "o diabo". Agora, Trump elogia com frequência o trabalho de Rodríguez.

Nos últimos meses, sob pressão de Washington, a presidente interina suspendeu os envios de petróleo para Cuba e já teve um atrito diplomático com o Irã. Também retomou relações com os governos de direita do Peru e do Chile.

Mas Noel Urbina, funcionário público de 45 anos, militante do partido governista, disse que os chavistas "radicais", como ele, "não apoiam Delcy" Rodríguez para uma eventual candidatura presidencial.

Isso é uma novidade, afirmam especialistas. "Ninguém tinha se atrevido a isso", avaliou o cientista político Luis Salamanca. Até poucos meses atrás, manifestações desse tipo de liberdade de expressão poderiam resultar em forte repressão política.

É verdade que sempre existiram críticas individuais, mas desta vez há "um grupo dentro do chavismo que enfrenta o chavismo governante", observou o analista à AFP. "Nunca se viu alguém dizer ao presidente da República chavista, fosse Chávez ou Maduro: 'olha, você está fazendo isso errado'".

As manifestações de descontentamento ocorrem pouco depois dos dois terremotos de 24 de junho, que deixaram mais de 6 mil mortos. E pouco antes de a opositora venezuelana Dinorah Figuera e o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da presidente, sentarem-se à mesa para tentar negociar a transição.

A grande ausência é a da principal líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, exilada desde dezembro e impedida de voltar ao país.

- "Realidade política" -

Francisco Arias, deputado do partido governista, pediu que se evite uma negociação "aprovada apenas por aqueles que dirigem o governo dos EUA", em uma mensagem publicada no Instagram.

O consultor e cientista político Jesús Castillo Molleda afirmou, no entanto, que Delcy Rodríguez conta com o apoio da maioria dos governadores, prefeitos e deputados.

A "realidade política" da Venezuela atual é que os Estados Unidos exercem forte influência sobre as decisões macroeconômicas "para reativar o aparato produtivo e econômico" após uma enorme crise de mais de uma década, destacou.

Suhey Ochoa, estudante de 30 anos da organização feminista Pan y Rosas, descartou apoiar Rodríguez em uma eventual eleição devido ao "profundo ressentimento" gerado após os terremotos.

Segundo ela, a população teve de se mobilizar para resgatar pessoas e retirar corpos dos escombros e não hesitará em "punir" nas urnas "um governo que não respondeu" à emergência.

L.A.Adams--TNT