The National Times - Ex-guerrilheiros colombianos temem por seu futuro ante chegada ao poder de De la Espriella

Ex-guerrilheiros colombianos temem por seu futuro ante chegada ao poder de De la Espriella


Ex-guerrilheiros colombianos temem por seu futuro ante chegada ao poder de De la Espriella
Ex-guerrilheiros colombianos temem por seu futuro ante chegada ao poder de De la Espriella / foto: © AFP

Derlis Aizama e Daniel Paredes se apaixonaram na guerrilha e depuseram as armas para formar uma família na Colômbia. Agora, temem que esse sonho seja enterrado pelo presidente eleito de extrema direita, Abelardo de la Espriella, que toma posse em 7 de agosto.

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O casal faz parte da centena de rebeldes que, há pouco mais de dois meses, aceitou um acordo entre uma dissidência das extintas Farc e o presidente de esquerda Gustavo Petro para iniciar a transição para a vida civil.

Dias depois, o país elegeu nas urnas De la Espriella como presidente. Advogado, ele promete desmontar qualquer negociação com organizações ilegais por considerar que a paz "é imposta com as armas".

Em uma zona especial no departamento de Putumayo (sul), onde permanecem desde que entregaram seus fuzis, Derlis e Daniel temem que o novo presidente restabeleça os mandados de prisão suspensos por Petro como parte do acordo.

A posse de De la Espriella lhe causa "insegurança", diz à AFP Derlis, de 24 anos, no local adaptado com moradias, enfermaria e campos de futebol.

"Estamos aqui porque queremos reconstruir nossas vidas, formar um lar", acrescenta. Ela conheceu Daniel, de 32 anos, que usa uma pulseira com o rosto do revolucionário Ernesto "Che" Guevara, quando ambos integravam o grupo guerrilheiro Coordenadora Nacional Exército Bolivariano (CNEB).

Na zona especial de Putumayo, todos se perguntam o que acontecerá com eles depois de sexta-feira.

– Não voltar às armas –

O desarmamento dessa centena de guerrilheiros foi o maior avanço da política de "paz total" de Petro, iniciativa com a qual ele tentou, sem sucesso, negociar com todos os grupos armados.

Na Colômbia, esse tipo de acordo costuma despertar desconfiança entre as guerrilhas depois que mais de 480 signatários de acordos de paz foram assassinados na última década, segundo a Defensoria do Povo.

Após o histórico acordo de 2016, que levou ao desarmamento da maior parte das guerrilhas marxistas das Farc, alguns de seus comandantes voltaram a pegar em armas, alegando supostos descumprimentos do Estado, e desencadearam uma nova onda de violência.

Darwin, um ex-guerrilheiro de 32 anos que não revela o sobrenome, acompanha os discursos de De la Espriella.

Em um deles, o presidente eleito deu prazo até sexta-feira, dia da posse, para que integrantes das organizações criminosas se submetam à Justiça comum. Caso contrário, segundo ele, terão apenas dois caminhos: "Morte ou prisão".

Ele também anunciou que extinguirá o gabinete presidencial para a paz e o de direitos humanos. Além disso, pretende desmontar o tribunal criado pelo acordo com as Farc para julgar os crimes mais graves do conflito armado.

"Isso nos deixa um pouco nervosos", reconhece Darwin, que afirma ter entrado para a guerrilha por falta de emprego em uma região marcada pelas plantações de folha de coca, matéria-prima da cocaína.

Desde que entregou sua arma, em 18 de junho, ele tem aproveitado o tempo para ler. Seu livro favorito, conta, é Cinderela.

Assim como Derlis e Daniel, ele afirma que não cogita voltar a pegar em armas.

O presidente eleito não comentou especificamente esse processo.

– "Suicídio institucional" –

De la Espriella foi eleito com um discurso de linha dura diante da crise de segurança enfrentada pelo país, marcado por ataques frequentes com explosivos contra militares e civis.

Guerrilheiros, paramilitares e outros grupos ligados ao narcotráfico se fortaleceram enquanto Petro apostava em uma saída negociada, segundo especialistas.

Os ex-guerrilheiros que permanecem em Putumayo estudam para concluir o ensino médio enquanto aguardam uma definição sobre sua situação jurídica.

Para se distrair, Mauricio Zambrano construiu uma pequena academia com pesos feitos de cimento e tubos metálicos.

"Sempre existe uma apreensão. Quando ele (De la Espriella) venceu, fez comentários muito duros", afirma.

O chefe da delegação do governo que negociou com esses ex-guerrilheiros tenta tranquilizá-los e garante que a zona especial está protegida por lei contra qualquer tentativa de De la Espriella de desmantelá-la.

Para o negociador Armando Novoa, os integrantes da guerrilha estão protegidos pelo Direito Internacional Humanitário por serem "pessoas em situação de indefesa".

"Seria um verdadeiro suicídio institucional ignorar essa realidade e lançar 99 pessoas novamente nos braços da violência e das armas", afirma.

C.Bell--TNT